A Inflação
dos Alimentos e o Meio Ambiente*
Por Mauro Kahn &
Pedro Nóbrega
Quando nos deparamos com alguma crise,
nossa atenção tende sempre a recair
sobre relações de causalidade direta.
Ao se falar, por exemplo, na crise da água,
é natural que transbordem campanhas apelando
para a redução do consumo doméstico.
No entanto, ao assumirmos este tipo de abordagem,
ignoramos outros hábitos que, postos em números,
demonstram-se muito mais prejudiciais. Neste artigo,
nos dedicamos a analisar um deles – o alto consumo
de recursos naturais para produção de
carne bovina – que consiste em um pequeno capricho
na nossa dieta, porém um grande impacto em
nosso meio ambiente.
Pesquisas apontam para um explosivo aumento per capita
no consumo de carne no lugar de vegetais, e estima-se
que até 2020 esse aumento seja de mais 50%
(em especial graças às adesões
de China e Índia aos hábitos alimentícios
do Ocidente). Nossa razão para preocupação
vai muito além de uma alimentação
saudável: engloba os expressivos gastos envolvidos
na produção da carne. Ainda permanecendo
na questão da água, é suficiente
lembrar que, para produzir-se 3 kg de carne bovina,
gasta-se tanta água quanto uma pessoa tomando
um banho diário (de chuveiro), durante cinco
minutos, por um ano. A partir de estimativas do Conselho
Mundial de Água (CMA), para produzirmos um
quilo de batata gastamos de 100 a 200 litros de água
(lembrando que é possível produzir mais
de 23.000 kg por hectare de batata no Brasil).
Entretanto, se desejamos carne bovina acompanhando
a batata, devemos nos preparar para consumir em média
13.000 litros por quilo (com uma produção
em torno de apenas 47 kg de carne equivalente-carcaça/ha).
A situação se agrava ao analisarmos
a energia gasta através de todo o processo.
Fora os gastos com combustível para transportar
os grãos que alimentam o gado, é necessário
manter em funcionamento tratores, caminhões
e equipamentos para preparar o gado até ele
chegar em nossas mesas. Ao confrontar estes aspectos,
enxergamos com maior nitidez o impacto que o aumento
do petróleo causa na inflação
dos alimentos. Outro ponto de interesse para nós
é a poluição causada pela criação
de gado. Segundo um relatório das Nações
Unidas de 2006, o gado é responsável
pela emissão de 18% dos gases poluentes. Além
disso, a pecuária também apresenta altos
índices de esgotamento do solo. Sabe-se, por
exemplo, que um terço de todo o território
próprio para cultivo dos EUA foi definitivamente
perdido por erosão. A poluição
das águas é um caso à parte.
Estima-se que a quantidade de resíduos gerados
pela agropecuária (durante todos os níveis
do processo) supere todas as fontes industriais e
municipais combinadas.
Segundo a Embrapa, a poluição gerada
pelo gado entre os anos 1990 e 1994 praticamente igualou
a poluição gerada pelo setor energético.
Embora não seja de maneira alguma a pretensão
de nossos argumentos formular uma sociedade vegetariana
– seria exagero propor a exclusão da
carne de nossa dieta – não é difícil
constatar que existe um excesso em nosso consumo,
desnecessário e prejudicial para todos: para
nossa saúde, nosso meio ambiente e nossa economia.
Percebam que com a entrada no mercado de milhões
de novos consumidores asiáticos, a situação
se desenha de maneira perturbadora. Se no passado
muitas vezes não havia solução
senão caçar (quando não era tempo
de colheita, etc.) – e mesmo assim nossos ancestrais
consumiam muito menos carne (além de não
precisarem alimentar sua caça) – hoje
temos uma vasta gama de possibilidades de nutrição,
consideravelmente mais adequadas para a quantidade
de pessoas que habitam o planeta e para os novos bilhões
que habitarão em um futuro próximo.
A plantação de frutas e vegetais –
os quais demandam gastos naturais mínimos e
são compostos de um importante valor nutritivo
– em larga escala é um exemplo. Outros
são a soja, o trigo e assim por diante. Em
um mundo sem alimentos, fica a dúvida: é
válido gastar 7 quilos de soja para gerar um
quilo de carne?
Por Mauro Kahn & Pedro Nóbrega
Mauro Kahn &
Pedro Nóbrega - Clube do Petróleo
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