PETRÓLEO: BENÇÃO
OU CASTIGO?
Por Mauro Kahn &
Pedro Nóbrega
Acompanhando a descoberta de reservas
abundantes em petróleo na área do pré-sal,
descortina-se também a polêmica sobre
a direção para onde toda esta riqueza
vai nos levar. Que pode e vai gerar muito dinheiro,
não há dúvidas, pois afinal a
lógica do mercado está aqui: os países
que não foram agraciados com grandes reservas
de petróleo precisam comprar daqueles que produzem.
É um dinheiro relativamente fácil, e
por conseqüência perigoso.
Juan Pablo Perez, ex-ministro e diplomata da Venezuela
(considerado o “pai da OPEP”), ao testemunhar
as dificuldades políticas e econômicas
causadas pelo petróleo a seu país, afirmou
com pesar que, para ele e para a Venezuela, o petróleo
nunca foi uma dádiva. Certa vez chegou ao ponto
de chamá-lo de “excremento do Diabo”.
É verdade que, mantendo-se
as devidas proporções, os grandes produtores
de petróleo tiveram (ou ainda têm) economias
mais fragilizadas do que aquelas de outros países
- como Japão e Alemanha - que jamais contaram
com reservas do “ouro negro” (e que passaram
boa parte do século XX arrasados por guerras).
Hoje, dentre os vinte maiores produtores de petróleo,
dezesseis são ditaduras, muitas das quais envolvidas
em fortes conflitos militares, e duas são democracias
bastante frágeis.
Por outro lado, há de se notar
que estamos lidando com uma série de contextos
e aspectos político-econômicos distintos,
e que equiparar o Brasil de hoje ao que esses países
foram no momento de seu próprio surto petrolífero
seria um descuido. Não temos, é claro,
qualquer intenção de comparar-nos também
à Noruega ou aos EUA, países os quais
se desenvolveram em larga escala com ajuda do petróleo
e que hoje surgem como sociedades muito bem-estruturadas.
Somos um caso particular e desta maneira devemos analisar
nossa situação.
Uma analogia que podemos traçar
neste caso é a hipotética situação
de um jovem herdeiro ao receber uma grande fortuna
de herança. Sendo este jovem bem estruturado
e capaz de administrar suas possibilidades, esta herança
poderia multiplicar-se e assim tornar-se capaz de
garantir segurança e conforto para várias
gerações de sua família. Por
outro lado, se sua maneira de encarar a fortuna for
indolente, e o dinheiro direcionado para uma vida
de excessos, nada sobrará para seus filhos
e netos. Assim, seu potencial de desenvolvimento pessoal
será completamente anulado, e ao longo dos
anos tudo aquilo que lhe chegou como uma dádiva
acabará transformando-se em ruína.
Nosso país entra no limiar desta
questão, ainda indeciso quanto à sua
personalidade. Se por um lado é verdade que
a corrupção e a falta de transparência
ainda reverberam nas relações econômicas
e políticas do país, por outro a evolução
existe e tem sido mais rápida do que o esperado.
Mesmo com todos os aspectos negativos que as polêmicas
do atual governo geraram, é inegável
que estamos assistindo à consolidação
de nosso processo democrático a cada eleição.
O mundo entra hoje no fim da era do petróleo
barato, e o Brasil está na lista dos maiores
beneficiados deste novo momento que se precipita.
Observe que hoje são especuladas reservas de
mais de 60 bilhões de barris, capazes de gerar
- a médio prazo - uma produção
de (em média) 4 a 5 milhões de barris/dia.
Isso significa, considerando que as cotações
dificilmente cairão abaixo dos US$ 90,00 (podendo
na realidade bater facilmente a casa dos US$200,00)
e que consumidores nunca faltarão, que estamos
diante de uma realidade econômica capaz de mudar
radicalmente nosso país.
A título de exemplo, se em um
futuro não muito distante o Brasil exportar
apenas 2 milhões de barris/dia e a cotação
estiver girando em torno de US$ 150,00, teremos uma
receita estimada em 108 bilhões de dólares/ano.
Mantida esta receita por 15 anos, o que não
é uma previsão de forma alguma utópica,
estaremos diante de mais de 1,5 trilhões de
dólares (só de exportação).
Não desejamos, é claro,
que todo este lucro inscreva o Brasil no “Guiness
Book” como o país com o maior número
de milionários e bilionários do planeta,
portanto, tal qual na analogia do jovem herdeiro,
faz-se necessário que o país e aqueles
que controlam a Indústria sejam capazes de
enxergar esse patrimônio não como dinheiro
que jorra do subsolo para o bolso e sim como o recurso
que irrigará nosso desenvolvimento.
Propostas sobre como investir os “royalties”
e outras receitas do petróleo não faltam.
É evidente que a própria Indústria
do Petróleo precisará de novos investimentos
para se manter produtiva por um prazo satisfatório.
Para isso é necessário priorizar a manutenção
das reservas, antes de qualquer outro investimento.
O investimento social, especialmente em educação,
saneamento e infraestrutura, também surge de
maneira natural como meio para erguer as bases de
um país fortalecido.
Com o capital gerado pelo petróleo,
nosso maior desafio passará a ser a identificação
das maiores vocações de nosso país,
para que saibamos onde e de que maneira investir.
Um país com o potencial e o tamanho do Brasil
não pode viver de monoculturas e/ou depender
somente do petróleo.
O Brasil apresenta, por exemplo, uma
forte vocação para tornar-se o "celeiro
do mundo”, pois dispomos de milhões de
hectares de terra arável disponível,
além de abundância de água e excelentes
níveis de energia solar. Embora estejamos sempre
no topo ou próximos do topo em quesitos como
pecuária, café, laranja, soja e cana-de-açúcar,
ainda tratamos de maneira desorganizada e amadora
nossa produção. Falta inspirar-nos no
exemplo da China, que ao ocupar o primeiro lugar (arroz,
aço, suínos, pesca, cimento, etc.) trabalha
suas possibilidades de maneira tão espetacular
que alcança uma distância impressionante
de praticamente qualquer outro concorrente.
Ocorre para nós como algo inconcebível
que um país com o nosso litoral, superior ao
chinês, apresente uma atividade de pesca mais
de quarenta vezes menor. Outro exemplo da discrepância
da nossa produção é o aço.
Com reservas de minério de ferro similares
às da China, produzimos 1/6 do aço que
produzem os chineses.
Considerando nossa baixa densidade demográfica
- 22,18 habitantes por Km² (2006) – é
possível projetar o lançamento de parte
de nossa população de 188,9 milhões
de brasileiros para o interior do país, já
que cerca de 85% desta população vive
nos grandes centros urbanos, onde a criminalidade
e os problemas ambientais apenas seguem aumentando.
É vital também,
devemos ressaltar, voltarmos nossos esforços
para a preservação e recuperação
de nossos rios, águas subterrâneas e
solos, pois é este nosso maior patrimônio.
Hoje, enquanto o mundo vive sua mais séria
crise ambiental em milênios, a manutenção
do futuro passa obrigatoriamente por proteger as riquezas
naturais do país.
Estamos diante de um ponto de virada
da história. Não temos a menor dúvida
de que os recursos dos quais dispomos mudarão
o destino do país. Como será esse destino,
ainda não é possível saber. Mas
certo é que o Brasil de hoje vislumbra como
nunca a oportunidade de ocupar o lugar que lhe cabe,
o espaço de potência que deveria ter
sido e ainda não alcançou.
Mauro Kahn &
Pedro Nóbrega - Clube do Petróleo
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