GOLFO PÉRSICO
- OS REIS DO PETRÓLEO
Por Mauro Kahn &
Pedro Nóbrega
Quando falamos em Golfo Pérsico,
se com relação ao petróleo o
que temos diante de nós é um verdadeiro
império de reservas (cinco das maiores do mundo
estão ali), em termos políticos estamos
diante de um complexo amálgama de posicionamentos.
Enquanto os países árabes mantêm
um peculiar alinhamento com os EUA, o Iraque permanece
um enigma e o Irã coloca-se em firme oposição
à política ocidental. Nesta equação,
o único elemento constante é o petróleo,
e a possibilidade de equilíbrio entre as partes
muito difícil de obter. É sabido que,
desde as primeiras décadas do século
passado, os países do Golfo Pérsico
já se estabeleciam como grandes produtores.
A princípio, o investimento estrangeiro foi
recebido com passividade. No entanto, a medida que
os Estados se familiarizavam com a produção
do petróleo, começavam também
a enxergar a possibilidade de lucrar sem a incômoda
interferência estrangeira.
E neste momento os conflitos tornaram-se inevitáveis.
Além das primeiras crises do petróleo,
o movimento de criação da OPEP (Arábia
Saudita, Irã, Iraque, Kwait, Emirados Árabes
e Catar pertencem ao grupo) e o endurecimento dos
governos regionais foram os desencadeadores da situação
geopolítica que perdura até hoje (com
momentos de maior e menor tensão). A primeira
ação de grande impacto da OPEP foi aquela
que desencadeou a segunda crise do petróleo,
quando – devido ao apoio americano à
Israel na Guerra do Yom Kippur – os países-membros
da organização decidiram aumentar em
300% o preço do petróleo.
Em 1979, a Revolução Iraniana (que derrubou
o Xá Reza Pahlevi, maior aliado americano)
sedimentou de vez os caminhos para o anti-americanismo
na região, o qual existe até mesmo dentro
de países aliados (vale lembrar que Bin Laden
é saudita). Como já foi dito anteriormente,
o Golfo Pérsico conta com uma boa parte das
reservas do mundo, o que torna impossível um
imediato desligamento dos consumidores em relação
à região. Novas alternativas –
como o Canadá, o Brasil e o Mar Cáspio
– parecem boas, mas ainda devem ser desenvolvidas
e sempre com um custo de produção bem
mais elevado do que no Oriente Médio. Isso
sem contar com as reservas ainda não descobertas:
apenas no Iraque, projetam-se 100 bilhões de
barris em reservas ocultas. Dentro do Golfo Pérsico
em si também é bastante provável
que exista um bom número de reservas, embora
a exploração atual não seja muito
intensa (graças à grande quantidade
de petróleo em terra). Deduzimos esta afirmativa
por puro bom senso: uma vez que há tantas reservas
provadas no Mar Cáspio, é natural que
existam também em águas tão próximas.
A situação do Golfo Pérsico é
paralela à dos campos de Baku e Grozny no início
do século XX (grandes reservatórios
em terra, bem próximos ao mar). Outro facilitador
da região é a rasa profundidade: o Golfo
Pérsico apresenta uma lâmina d'água
sempre inferior a 100 m (a média é de
50m, contra 184m do Mar Cáspio). Nos últimos
tempos, a tensão no Iraque parece estar diminuindo,
o que pode proporcionar um largo aumento na produção
do país e torná-lo um ponto chave para
os interesses ocidentais. O Iraque, além de
fantásticas reservas (melhor R/P do mundo),
possui um posicionamento geográfico bastante
estratégico. De um lado está a Turquia,
país com o qual os EUA estão firmando
diversos acordos para construção de
dutos que permitirão o transporte do petróleo
até o Mar Mediterrâneo (os americanos
pretendem ainda construir dutos na Arábia Saudita,
objetivando escoar o petróleo árabe
até o Mar Vermelho).
Do outro lado está o Irã, país
a partir do qual há muitos anos vem surgindo
os maiores problemas da região. É fundamental
para o governo do Iraque também chegar a um
entendimento com o governo do Kwait para que seja
desenvolvido o potencial iraquiano, pois as condições
de escoamento através do Golfo Pérsico
são limitadas para o país: o Iraque
conta apenas com o delta do rio Shatt Al Arab para
a exportação de seu petróleo
por via marítima (a situação
é problemática porque uma das margens
do rio pertence ao Irã). Importante lembrar
que esta dificuldade logística já foi
no passado uma das motivações do Iraque
para invadir o Kwait, o qual muitos iraquianos sempre
viram como uma extensão natural de seu território.
Por mais que a instabilidade seja uma
marca até mesmo dentre aliados dos EUA, como
a Arábia Saudita, é o Irã que
de fato gera a maior parte do mal estar global em
relação à região do Golfo
Pérsico. Para “agravar” a posição
do Ocidente, o país parece deter a chave de
todas as portas. De um lado, mantém relações
amigáveis com a Turquia, o que lhe permite
um acesso ao mercado europeu; de outro, está
posicionado entre o Mar Cáspio e o Golfo Pérsico,
com bilhões de reservas a serem exploradas
em ambos os mares; por outro ainda, o país
é aliado do Turcomenistão, uma possível
rota para a China; e por final, o país exerce
controle sobre o Estreito de Ormuz, onde passa a maior
parte do petróleo que deixa o Golfo Pérsico
por mar.
Um dos maiores temores, tanto dos produtores
da região quanto dos consumidores do Ocidente,
é que o Irã venha a fechar ou sabotar
o Estreito de Ormuz, o que levaria a um prejuízo
inestimável. Para Teerã, bastaria bloquear
todo o estreito com navios e pequenas embarcações
(em sinal de protesto, por exemplo) para atrapalhar
a navegação dos petroleiros e causar
saltos elevados na cotação do barril
de petróleo.
Estando em jogo tanta riqueza, a aposta
de risco em uma região como o Golfo Pérsico
leva os investidores a se dependurarem sobre a velha
questão: produzir barato ou comercializar em
paz? Afinal, até que ponto é possível
conciliar os dois?
Mauro Kahn &
Pedro Nóbrega - Clube do Petróleo
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