PROPRIETÁRIOS
E INQUILINOS DO MAR CÁSPIO
Por Mauro Kahn &
Pedro Nóbrega
Em 1876, quando os irmãos Nobel
instalaram sua companhia (Branobel) na cidade de Baku
– capital do atual Azerbaijão –
e iniciaram a exploração em larga escala
do petróleo do Mar Cáspio, já
se fazia notar o potencial petrolífero da região.
Conhecida como “a capital do ouro negro”
e responsável por 50% da produção
mundial de petróleo no início do século
XX, Baku teve o curso de sua história completamente
alterado ao ser apropriada pelos soviéticos
em 1920, o que naturalmente afastou toda a produção
do Mar Cáspio dos grandes consumidores capitalistas.
No entanto, esse afastamento não significou
o esquecimento do tesouro oculto no maior lago do
mundo. O próprio Adolf Hitler, após
o fracasso em tomar Moscou, decidiu abrir uma nova
frente em terras soviéticas para apoderar-se
de Baku, mas acabou contido em Stalingrado. Passados
quase trinta anos do esfacelamento do bloco soviético,
o Mar Cáspio volta à ordem do dia. Em
seus mares – por vezes ultra-profundos –
estima-se que haja em torno de 160 bilhões
de barris a serem extraídos, o suficiente para
um longo período de prosperidade e muito mais
do que o necessário para reorganizar a dinâmica
geopolítica global.
Apesar da elevada complexidade política da
região, o Mar Cáspio ainda surge como
uma alternativa menos incerta para o Ocidente do que
os produtores filiados à OPEP. A mesma vantagem
vale também para a China, que ainda conta com
a segurança de manter seus fornecedores por
perto. Para a Ásia Central e países
periféricos (ex: Turquia), é a promessa
de força política e consolidação
econômica através dos dutos que cruzam
seus territórios. Para a Rússia, é
a possibilidade de aproveitar-se do considerável
aumento de reservas em sua área de influência
e de firmar-se como principal ponte entre a Europa
e o Mar Cáspio.
No entanto, nem tudo são flores neste jardim.
Com essa profusão de riqueza cada vez mais
próxima, todos os países olham em torno
com desconfiança, temendo perder suas vantagens
para o vizinho. Assim as rivalidades se sublinham,
os obstáculos vêm à tona e a situação
assume formas indefinidas.
A divisão dos setores correspondentes a cada
país é um primeiro problema. Quando
o Mar Cáspio dividia-se apenas entre a Pérsia
(Irã) e a antiga URSS, a demarcação
parecia simples: a fronteira marítima deveria
ser uma extensão natural da fronteira terrestre.
Hoje, com cinco países envolvidos na partilha
(são eles: Rússia, Azerbaijão,
Cazaquistão, Turcomenistão e Irã),
a situação é outra. Embora a
atual divisão supostamente siga as avaliações
de um tratado estabelecido entre Rússia, Cazaquistão
e Azerbaijão – o qual divide o Mar Cáspio
de acordo com a dimensão da costa de cada país
ribeirinho – o Irã afirma desconhecer
esse tratado e clama por uma divisão igualitária,
de 1/5 para cada país (o que lhes favoreceria,
pois o país conta hoje com a menor parte, algo
como 13%).
O maior atrito causado por esta partilha ocorre entre
Irã e Azerbaijão. Este último,
por enquanto, tem tratado a questão com cautela,
e promete não explorar as regiões em
disputa até que se chegue a um acordo. No entanto,
neste meio tempo o Azerbaijão estreita relações
com os EUA e assiste o Irã aproximar-se da
Armênia, seu adversário histórico
e localizado a apenas 30 milhas da rota de escoamento
do petróleo de Baku via Turquia. Os dutos,
aliás, constituem-se em uma outra questão
de fundamental importância geopolítica.
De um lado, os maiores produtores (Azerbaijão,
Turcomenistão e Cazaquistão) aguardam
pelas melhores propostas; de outro, os países
com maior força econômica/bélica
(Rússia, Irã, China e EUA) ocupam-se
do jogo político. Em primeira instância,
a Rússia se beneficia da vantagem de ser o
fornecedor mais “direto” da Europa. Como
todas as rotas de alguma maneira devem chegar ao continente
europeu, o país pode ser considerado aquele
com o maior potencial de domínio sobre esta
riqueza. Sua forte influência sobre o Azerbaijão
e o Cazaquistão também pesa a seu favor.
Hoje, o principal duto russo é o de Baku-Novorossiysk,
e existe a proposição de expandi-lo
através do Mar Negro até a Turquia.
A Turquia é um país-chave nesta dinâmica
geopolítica. Em seu território está
construída grande parte da rota Baku-Cehyan,
favorecida pelo governo e companhias americanas e
também favorável aos interesses europeus
(visto que desemboca no Mediterrâneo). Por outro
lado, os turcos também abriram negociações
com os russos, adquirindo cada vez mais poder de barganha.
Uma nova ligação com Baku (passando
pela Geórgia) e projetos envolvendo a exportação
do gás iraniano também fazem parte dos
planos da Turquia.
O Irã vive o problema de estar isolado na política
do Mar Cáspio. Embora tenha a vantagem de poder
escoar seus recursos para o Golfo Pérsico –
e apesar das relações amigáveis
com Turquia e Turcomenistão – as desavenças
com outros Estados e com o governo americano ainda
impedem o país de despontar. O Irã poderia,
por exemplo, exportar seu gás para a Índia,
no entanto precisaria passar por Afeganistão
e Paquistão, o que é dificultado por
sua política agressiva com os aliados dos EUA.
Os americanos certamente não se colocam de
fora desta partilha. Seu projeto mais ambicioso envolve
a construção de um duto no Afeganistão
ligando o Turcomenistão ao Mar Arábico,
a partir de onde o petróleo seria repassado
para o promissor mercado asiático sem ter que
atravessar regiões mais distantes e conflituosas
como o norte da China e o Golfo Pérsico. A
China, embora disponha da fronteira com o Cazaquistão
– que sozinho possui mais da metade de todas
as reservas estimadas – sofre com a questão
da província separatista de Xinjiang. A região,
que mesmo após o comunismo manteve-se firme
em suas tradições, é um obstáculo
considerável tanto para o consumo chinês
quanto para suas ambições em relação
ao mercado asiático.
Como fica evidente, o maior fator de
complicação na dinâmica geopolítica
do Mar Cáspio tem uma resposta simples: o grande
número de países envolvidos. O inevitável
jogo de interesses dos países envolvidos acaba
fazendo emergir velhos e novos conflitos, que através
de alianças ganham proporções
perigosas. Recentemente, assistimos a uma séria
crise de gás envolvendo a Rússia e a
Ucrânia, quando os russos decidiram praticamente
quintuplicar o preço do gás fornecido
para a Ucrânia e, diante da recusa, cortaram
o suprimento ucraniano em pleno inverno (ignorando
o fato de que grande parte do gás exportado
para o resto da Europa passa necessariamente pelo
país). O perigo de se atravessar território
estrangeiro com oleodutos e gasodutos é este,
e no caso do Mar Cáspio torna-se um perigo
necessário. Nas últimas semanas, a operação
militar russa dentro da Geórgia foi mais do
que apenas a conseqüência de um conflito
local: foi uma demonstração de força
de quem não pretende deixar de dar as cartas
na região.
A verdade é que, embora a riqueza do Mar Cáspio
seja inquestionável, o preço que esta
riqueza custará e a maneira como será
aproveitada ainda são bastante incertos. Com
tantas fatias para repartir, o bolo pode não
ser tão grande como na imagem que vemos dele.
Mauro Kahn &
Pedro Nóbrega - Clube do Petróleo
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