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Será mesmo o Katrina do Obama?

A explosão da plataforma Deepwater Horizont, ocorrida em 20 de abril 2010, e que provocou a morte de 11 pessoas, ocasionou uma ruptura no poço explorado, passando a vazar grandes quantidades de petróleo no mar do Golfo do México. Segundo as estimativas o vazamento de óleo abrange cerca de 2 a 4 milhões de litros por dia. Muitos o comparam com o histórico acidente do petroleiro Exxon Valdez, e o desastre ainda empresta sentido a metáforas, como a que diz ser a plataforma Horizont o Katrina de Obama, fazendo alusão ao desastre vivido pelos americanos durante o governo Bush.

     Em nossa opinião, apesar do expressivo derrame de petróleo no mar figurar como resultado tanto no caso Exxon Valdez quanto no da Deepwater Horizont, viviam-se contextos bastante diferenciados. O primeiro envolve um navio petroleiro naufragando em uma baía do estado do Alaska, fato somente explicavel por uma enorme imprudência do capitão da embarcação; já o segundo caso decorreu de uma sucessão de erros, envolvendo um cenário de elevada tecnologia, que culminaram na explosão da plataforma.

    Outrossim, estamos seguros de que a gestão do Presidente Obama  diverge muito da de seu antecessor, e de que o naufrágio de uma plataforma não possui grande relação de semelhança a passagem de um furacão com a força do Katrina, só estamos torcendo para que não surjam novos furações, tão comuns nesta época do ano, pois isto sim seria um desastre total pois faria o óleo se espalhar por uma extensão bem maior.

    Mesmo neste contexto, a  imagem do Presidente Obama de ser um hábil gestor de crises mancha-se pelas toneladas de petróleo que jorram diariamente nas águas do Golfo do México. Inicialmente, os críticos de plantão acusaram as maiores empresas da indústria mundial do petróleo de irresponsabilidade - Até aí, achamos muito naturais e justas as acusações - Todavia, foram além, levando o Obama às cordas do ringue.

     A saraivada de críticas motivou uma mudança de postura pela presidência. O apoio à indústria, em defesa da extração de petróleo de águas profundas, deu lugar a um pedido de desculpas pelo seu engano por parte de Obama.

    Acuado, o homem mais poderoso do planeta passou a declarar: "Eu assumo a responsabilidade e ainda afirmo que  aqueles que pensam que fomos lentos na resposta, ou que falhamos na urgência, desconhecem os fatos. Combater este vazamento tem sido a nossa mais alta prioridade desde o início".

    Sem alternativas, Obama anunciou a prorrogação da moratória para perfurações em águas profundas na região por mais seis meses, e também quer acelerar a pesquisa para desenvolvimento de fontes alternativas de energias.

     Enfático em seus discursos, afirmou  que o desastre ecológico representa "a urgente necessidade" de desenvolver fontes renováveis de energia nos Estados Unidos, e que já é chegada a hora de acelerar a competição diante de países como a China, que já entenderam como o futuro depende das energias renováveis. Ressaltou que em função dos custos e riscos, o combustível fóssil simplesmente não poderá mais se sustentar, à medida que o planeta não pode mais suportá-lo.

     Toda esta retórica é musica para os nossos ouvidos, pois estamos muito ansiosos por uma matriz energética mais limpa e com fontes de energia bem mais baratas e confiáveis do que o petróleo.  Infelizmente, o petróleo, o gás natural, e o carvão mineral ainda representam quase 80% do consumo mundial de fontes primárias de energia, e segundo as previsões mais otimistas em relação às energias limpas, tais quais os biocombustíveis, a energia eólica, e a energia solar, admitem que estes incrementos não  serão suficientes  sequer  para atender ao  aumento da demanda mundial por energias nas próximas duas décadas, pelo menos.

    Neste momento, com a provável queda da produção de petróleo nas águas do Golfo do México e do Alaska, estima-se que as cotações do petróleo se elevem, já que, obviamente, reduzida a produção dos EUA, suas importações aumentarão, e muito, de uma hora para a outra, concorrendo com uma China que só aumenta suas importações de petróleo, dia após dia.

     São mais que compreensíveis as exigências por soluções rápidas e eficazes, que cobrem severas punições para todos os culpados deste acidente, caso se comprove que estes agiram imprudentemente, como já se fala abertamente. Interessante é constatar que a revolta dos atingidos pela mancha de óleo, e da sociedade, em geral, pode ser comparada com a dos familiares vítimas de um acidente aéreo. Todavia, é curioso como nos acidentes aéreos todos clamam por apurar responsabilidades, punir os culpados, e também pela implementação de medidas que tornem a aviação mais segura, mas nunca cogitam interromper as viagens aéreas até que novas medidas sejam de fato implementadas.

     Na mesma linha, a sociedade reconhece que não temos como substituir os aviões contemporâneos por longas viagens de navios, trens, ou automóveis. Questionamo-nos como esta mesma sociedade, que é hoje tão bem informada e sabe que a era do petróleo está muito longe de terminar, pode acreditar que medidas tão radicais possam ser mantidas por muito tempo?

Mauro Kahn

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