Acompanhando a descoberta
de reservas abundantes em petróleo
na área do pré-sal, descortina-se
também a polêmica sobre a direção
para onde toda esta riqueza vai nos levar.
Que pode e vai gerar muito dinheiro, não
há dúvidas, pois afinal a
lógica do mercado está aqui:
os países que não foram agraciados
com grandes reservas de petróleo
precisam comprar daqueles que produzem.
É um dinheiro relativamente fácil,
e por conseqüência perigoso.
Juan Pablo Perez,
ex-ministro e diplomata da Venezuela (considerado
o “pai da OPEP”), ao testemunhar
as dificuldades políticas e econômicas
causadas pelo petróleo a seu país,
afirmou com pesar que, para ele e para a
Venezuela, o petróleo nunca foi uma
dádiva. Certa vez chegou ao ponto
de chamá-lo de “excremento
do Diabo”.
É
verdade que, mantendo-se as devidas proporções,
os grandes produtores de petróleo
tiveram (ou ainda têm) economias mais
fragilizadas do que aquelas de outros países
- como Japão e Alemanha - que jamais
contaram com reservas do “ouro negro”
(e que passaram boa parte do século
XX arrasados por guerras). Hoje, dentre
os vinte maiores produtores de petróleo,
dezesseis são ditaduras, muitas das
quais envolvidas em fortes conflitos militares,
e duas são democracias bastante frágeis.
Por outro lado, há
de se notar que estamos lidando com uma
série de contextos e aspectos político-econômicos
distintos, e que equiparar o Brasil de hoje
ao que esses países foram no momento
de seu próprio surto petrolífero
seria um descuido. Não temos, é
claro, qualquer intenção de
comparar-nos também à Noruega
ou aos EUA, países os quais se desenvolveram
em larga escala com ajuda do petróleo
e que hoje surgem como sociedades muito
bem-estruturadas. Somos um caso particular
e desta maneira devemos analisar nossa situação.
Uma analogia que podemos
traçar neste caso é a hipotética
situação de um jovem herdeiro
ao receber uma grande fortuna de herança.
Sendo este jovem bem estruturado e capaz
de administrar suas possibilidades, esta
herança poderia multiplicar-se e
assim tornar-se capaz de garantir segurança
e conforto para várias gerações
de sua família. Por outro lado, se
sua maneira de encarar a fortuna for indolente,
e o dinheiro direcionado para uma vida de
excessos, nada sobrará para seus
filhos e netos. Assim, seu potencial de
desenvolvimento pessoal será completamente
anulado, e ao longo dos anos tudo aquilo
que lhe chegou como uma dádiva acabará
transformando-se em ruína.
Nosso país entra
no limiar desta questão, ainda indeciso
quanto à sua personalidade. Se por
um lado é verdade que a corrupção
e a falta de transparência ainda reverberam
nas relações econômicas
e políticas do país, por outro
a evolução existe e tem sido
mais rápida do que o esperado. Mesmo
com todos os aspectos negativos que as polêmicas
do atual governo geraram, é inegável
que estamos assistindo à consolidação
de nosso processo democrático a cada
eleição.
O mundo entra hoje no
fim da era do petróleo barato, e
o Brasil está na lista dos maiores
beneficiados deste novo momento que se precipita.
Observe que hoje são especuladas
reservas de mais de 60 bilhões de
barris, capazes de gerar - a médio
prazo - uma produção de (em
média) 4 a 5 milhões de barris/dia.
Isso significa, considerando que as cotações
dificilmente cairão abaixo dos US$
90,00 (podendo na realidade bater facilmente
a casa dos US$200,00) e que consumidores
nunca faltarão, que estamos diante
de uma realidade econômica capaz de
mudar radicalmente nosso país.
A título de exemplo,
se em um futuro não muito distante
o Brasil exportar apenas 2 milhões
de barris/dia e a cotação
estiver girando em torno de US$ 150,00,
teremos uma receita estimada em 108 bilhões
de dólares/ano. Mantida esta receita
por 15 anos, o que não é uma
previsão de forma alguma utópica,
estaremos diante de mais de 1,5 trilhões
de dólares (só de exportação).
Não desejamos,
é claro, que todo este lucro inscreva
o Brasil no “Guiness Book” como
o país com o maior número
de milionários e bilionários
do planeta, portanto, tal qual na analogia
do jovem herdeiro, faz-se necessário
que o país e aqueles que controlam
a Indústria sejam capazes de enxergar
esse patrimônio não como dinheiro
que jorra do subsolo para o bolso e sim
como o recurso que irrigará nosso
desenvolvimento.
Propostas sobre como
investir os “royalties” e outras
receitas do petróleo não faltam.
É evidente que a própria Indústria
do Petróleo precisará de novos
investimentos para se manter produtiva por
um prazo satisfatório. Para isso
é necessário priorizar a manutenção
das reservas, antes de qualquer outro investimento.
O investimento social, especialmente em
educação, saneamento e infraestrutura,
também surge de maneira natural como
meio para erguer as bases de um país
fortalecido.
Com o capital gerado
pelo petróleo, nosso maior desafio
passará a ser a identificação
das maiores vocações de nosso
país, para que saibamos onde e de
que maneira investir. Um país com
o potencial e o tamanho do Brasil não
pode viver de monoculturas e/ou depender
somente do petróleo.
O Brasil apresenta, por
exemplo, uma forte vocação
para tornar-se o "celeiro do mundo”,
pois dispomos de milhões de hectares
de terra arável disponível,
além de abundância de água
e excelentes níveis de energia solar.
Embora estejamos sempre no topo ou próximos
do topo em quesitos como pecuária,
café, laranja, soja e cana-de-açúcar,
ainda tratamos de maneira desorganizada
e amadora nossa produção.
Falta inspirar-nos no exemplo da China,
que ao ocupar o primeiro lugar (arroz, aço,
suínos, pesca, cimento, etc.) trabalha
suas possibilidades de maneira tão
espetacular que alcança uma distância
impressionante de praticamente qualquer
outro concorrente.
Ocorre para nós
como algo inconcebível que um país
com o nosso litoral, superior ao chinês,
apresente uma atividade de pesca mais de
quarenta vezes menor. Outro exemplo da discrepância
da nossa produção é
o aço. Com reservas de minério
de ferro similares às da China, produzimos
1/6 do aço que produzem os chineses.
Considerando nossa baixa
densidade demográfica - 22,18 habitantes
por Km² (2006) – é possível
projetar o lançamento de parte de
nossa população de 188,9 milhões
de brasileiros para o interior do país,
já que cerca de 85% desta população
vive nos grandes centros urbanos, onde a
criminalidade e os problemas ambientais
apenas seguem aumentando.
É vital
também, devemos ressaltar, voltarmos
nossos esforços para a preservação
e recuperação de nossos rios,
águas subterrâneas e solos,
pois é este nosso maior patrimônio.
Hoje, enquanto o mundo vive sua mais séria
crise ambiental em milênios, a manutenção
do futuro passa obrigatoriamente por proteger
as riquezas naturais do país.
Estamos diante de um
ponto de virada da história. Não
temos a menor dúvida de que os recursos
dos quais dispomos mudarão o destino
do país. Como será esse destino,
ainda não é possível
saber. Mas certo é que o Brasil de
hoje vislumbra como nunca a oportunidade
de ocupar o lugar que lhe cabe, o espaço
de potência que deveria ter sido e
ainda não conseguiu.
Mauro Kahn &
Pedro Nóbrega - Clube do Petróleo
-
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* Números
retirados do Atlas da Nacional Geographic
(volume 19 – A Terra em Números)
Publicação
e divulgação integral deste
artigo estão autorizadas desde que
sejam preservados os créditos de
autoria e mantido inalterado o conteúdo.
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